Com os olhos na alma

Os números são expressivos: do total da população brasileira, 23,9% - que correspondem à 45,6 milhões de pessoas – declararam ter alguma deficiência no último censo do IBGE em 2010. Entre as deficiências relatadas, a mais comum foi a visual, atingindo 3,5% da população. O Brasil possui hoje mais de 6,5 milhões de pessoas com alguma deficiência visual, que vão desde a cegueira, baixa visão ou visão subnormal, e as principais causas são a catarata, retinopatia diabética, cegueira infantil, degeneração macular e glaucoma. Foi esta última que acometeu Eduarda Emerick Lima, hoje com 21 anos, e completamente cega desde os três. 

Duda, como é intimamente chamada pelos amigos e familiares, nasceu com olhos azuis. Um desejo da maioria das pessoas? Não, ela nasceu com olhos azuis e inchados, fruto de uma pressão ocular maior que 50 (para fins comparativos, a pressão considerada normal é até 21). No segundo dia da sua vida fez sua primeira cirurgia e incontáveis sequentes. Aos três anos, os médicos tentaram realizar um transplante de córnea, mas houve completa rejeição e deslocamento da retina, tornando-a completamente incapaz de enxergar com seu olho direito e tendo apenas percepção da claridade com o olho esquerdo. “Percebo quando um ambiente está claro ou não, se é dia ou noite, se a luz está acesa ou apagada”. Mal sabe ela que a luz principal emana de si própria. 

Duda é fonte de inspiração. Estudante do 6o período de Ciências Biológicas na PUC-Rio, a jovem menina impressiona ao contar que toca violino na Escola de Música Villa-Lobos há três anos. Criada por duas figuras femininas importantes na sua vida, sua mãe e avó, desde cedo foi ensinada a ser independente. Aos três anos lavava a louça para estimular seu tato e conhecer o que é um prato, um garfo ou uma colher. Seus brinquedos tinham estímulos sonoros, táteis e olfativos. Ela reforça que a independência é um processo gradual para o deficiente visual e depende muito da estrutura que o cerca. A adaptação é contínua, progressiva, requer repetição e um bocado de memória. “Quando temos férias da PUC por longos períodos, volto um pouco perdida, preciso relembrar os caminhos dentro da universidade”, conta se divertindo. 

Foi alfabetizada em braile, sistema de escrita tátil universal, que auxiliou no seu processo de emancipação e autonomia. É importante enfatizar que há quem defenda o fim do braile, já que a tecnologia tem evoluído e os cegos têm tido acesso à informação através de softwares que leem em voz alta. Duda explica que o braile permite que eles possam ler e escrever sozinhos (ativamente!) e não sendo reféns de leituras passivas. Façamos a comparação: quem enxerga não vê TV ou ouve rádio apenas. A leitura faz parte da alfabetização, treinamento e desenvolvimento cognitivo da pessoa. 

Essa determinada, tenaz e corajosa estudante tem muito o que ensinar com a enorme sensibilidade e percepção do mundo ao seu redor. Duda está empenhada a mostrar, através das palestras que ministra, que não precisa ser cuidada ou tolhida de viver sua vida plenamente, estando apta a fazer as mesmas coisas que qualquer outra pessoa. Segundo o psicanalista Rubem Alves, “há muitas pessoas de visão perfeita que nada veem; o ato de ver não é coisa natural, precisa ser aprendido”. E como aprendemos com ela! Fato curioso: quando questionada sobre seus sonhos (já que nunca enxergou) ela conta que sonha com percepções, sensações e memórias do seu dia a dia. Depois de conhece-la, o que fica difícil é não sonhar com ela.

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